sábado, 3 de julho de 2010

Era uma vez o amor mas tive que matá-lo

             Nancy podia ficar o dia inteiro lendo. Sid andava de um lado para o outro da casa derrubando tudo o que encontrava pelo caminho. Não conseguia entender o que Nancy via naqueles livros, ele queria comprar um cavalo mas Nancy não se interessava por cavalos. Sid se perguntava que tipo de garota era Nancy mas não obtinha resposta.
- Por que diabos você lê essas coisas, gatinha?
- Eu gosto.
Sid pegou o livro e leu duas linhas.
- E você entende o que diz?
- Não.
- Então?
- Eu gosto.
             De tempos em tempos Sid jogava os livros de Nancy no fogo, então ela perdia o apetite, se drogava a toda hora, não respondia às perguntas dele. Sid via como ela ia se apagando como um lento entardecer de outono. Não era surpresa para Nancy vê-lo chegar trazendo uma caixa de papel rosa com edições de luxo dos livros queimados e novos títulos e autores que ela não conhecia. As revistas femininas escreviam sobre Nancy: para alguns ela era uma idiota, outros a consideravam genial. Sid desconfiava que Nancy conseguia entender aqueles livros e que zombava dele quando os lia. (p. 18)

Era uma vez o amor mas tive que matá-lo
de Efraim Medina Reyes, 2003,  Colômbia.

O bom é que você escreve e continua sonhando com a mulher do vizinho, sonha que a agarra pelas orelhas e crava-lhe a rola. O ruim é que escrever não cura seus desejos assassinos, que assaltar um supermercado continua sendo o seu objetivo impossível. O ruim é que ainda deseja um amor inesquecível. O bom é que escrever é outra forma de cagar e se masturbar. O ruim é que você lê os grandes autores mas só Bukowski lhe diz alguma coisa. O ruim é que um dia a garota mais bonita toma conhecimento que você escreve e não deixa que lhe meta fundo, até o outro lado da morte. O ruim é que escrever serve para tudo aquilo que você não quer. (p. 73)

2 comentários:

Adalberto Day disse...

Beli
Escrever, ler...
Uma das características da felicidade se encontra na boa leitura e ainda mais prazeroso quem escreve. Achei muito interessante o termo usado "cagar e se masturbar", pesado cagar uma necessidade fisiológica como se masturbar, mas a primeira creio para todos os cidadãos mais frequente e sei lá se dá para comparar. Como dizia um amigo "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Voltando ao tema e saindo da masturbação, entendo perfeitamente de que forma se refere o texto. A leitura é um passatempo, uma agradável companhia, uma eterna namorada, mas é preciso sabê-la tratar, manipular, dar carinho, levá-la ao imaginário e ai cabe os dois termos, uma pode jogá-la fora, outra a conquista. Quem lê sabe o que estou falando, ou quem entender o texto aqui apresentado....não vamos matar o nosso amor, vamos cada vez mais apreciá-lo, ao contrário daqueles que apenas que dizem que leram tal livro, e na verdade faz só citação de autores, esse está se enganando a si próprio e matando seu amor. A maioria do povo gado, diz que leu um livro ao ser perguntado qual, dizem a Bíblia o livro mais lido do mundo. Porém se enganam a si próprio apenas o possui e não se deliciaram com a leitura dele ou qualquer outro livro. Isso serve para nosso mandatário maior e sua suposta candidata que ao citar livros teve que recorrer a sua assessora que ali estava preparada com anotações...mas isso é outra conversa....já estou escrevendo mais que o próprio texto, mas isso nós faz ir ao imaginário e não quero matar o meu amor. Escrever e ler são meus amores além dos que já conquistei pela vida na minha vivencia de tantos amores...e a minha lindinha sempre comigo. Mas espera ai, eu sou apenas Cientista Social me metendo na vida dos escritores, mas posso pelo menos ser um bom leiturista.
Parabéns por essa bela postagem, e pelo belo trabalho de vocês.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

Paula disse...

Necessito ler este livro.